A ciência da avaliação: por que o valor sentimental do vendedor é o maior inimigo da liquidez

Sabe aquele churrasco de domingo em família que ficou marcado na memória? Ou a parede da sala onde você riscou o crescimento dos seus filhos ao longo de dez anos? Para quem mora, esses momentos não têm preço. Mas, para quem compra, eles são invisíveis. E é exatamente aqui que mora o maior perigo para quem decide colocar um imóvel à venda: o conflito entre o coração e a planilha de Excel. Trabalhando há anos no mercado, percebi que o “valor sentimental” é o ingrediente mais caro e menos lucrativo de uma negociação.

Existe um conceito na economia comportamental chamado Efeito Dotação. Basicamente, ele explica que nós, seres humanos, tendemos a atribuir um valor muito maior às coisas simplesmente porque elas nos pertencem. No mercado imobiliário, isso se traduz em um proprietário que ignora os dados do bairro porque acredita que a reforma que ele fez em 2012 — e que ele amou — ainda justifica um ágio de 20% sobre o preço de mercado. Vou te dar um exemplo real que vi acontecer no ano passado. Um cliente tinha um apartamento excelente em um bairro nobre. O preço de mercado, baseado em transações reais recentes de unidades idênticas no mesmo prédio, era de R$ 1,2 milhão.

Mas ele insistia em pedir R$ 1,5 milhão. O argumento? “Eu escolhi cada maçaneta, a madeira do piso é de demolição e eu vivi os melhores anos da minha vida aqui.” O resultado foi previsível. O imóvel ficou “aniquilado” no mercado. Passou seis meses nos portais, as fotos ficaram batidas, os corretores pararam de oferecer porque sabiam que o dono era “difícil” e a liquidez foi para o ralo. Quando ele finalmente aceitou baixar o preço, o imóvel já estava com aquele estigma de “tem algo errado com essa unidade, por que não vende?”. Ele acabou fechando por R$ 1,1 milhão. O apego custou R$ 100 mil e um ano de condomínio e IPTU pagos à toa. https://www.remax.com.br/casas-para-alugar-em-asa-sul-brasilia/